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Por mais de um século, a onça-pintada percorreu diferentes regiões de Santa Catarina. Essa presença, pouco documentada na literatura científica, ganha contornos mais precisos com um estudo que reuniu e analisou 16 registros fotográficos históricos da espécie no estado, todos anteriores a 1985. A pesquisa foi desenvolvida por Pedro Henrique Amancio Padilha, estudante de Medicina Veterinária da UniSociesc, em parceria com o professor Jackson Preuss, biólogo e pesquisador da Unoesc, e resultou no artigo Historical Records of the Jaguar Panthera onca (Linnaeus, 1758) in the state of Santa Catarina (Registros históricos da Panthera onca (Linnaeus, 1758) no estado de Santa Catarina), publicado no Journal of Threatened Taxa.
Os registros, obtidos a partir de acervos pessoais, jornais não indexados e instituições públicas, revelam uma distribuição geográfica ampla da onça-pintada em Santa Catarina antes de sua provável extinção local. A maior concentração de ocorrências está no extremo oeste e no Oeste Catarinense, que concentram 56,25% das ocorrências. Em seguida, aparecem o Vale do Itajaí e o Planalto Norte, com 25%, o nordeste catarinense, com 12,5%, e o Planalto Serrano, com 6,25%. Oito das ocorrências localizam-se a menos de 150 quilômetros da fronteira com a Argentina.
Do total de registros, 13 correspondem a animais abatidos e apenas três a indivíduos capturados vivos. As fotografias analisadas abrangem municípios como Joinville, Corupá, Blumenau, Itapiranga, Fraiburgo, Taió, Sul Brasil, Guaraciaba, Paraíso, Anchieta, Cunha Porã, Urubici e Campo Erê. Este último concentra o dado mais recente confirmado da espécie no estado, um animal abatido em 1984.
Segundo Padilha, a pesquisa nasceu da inquietação diante da ausência de informações sistematizadas sobre a onça-pintada em Santa Catarina. “Sempre me intrigou muito saber por que ela desapareceu, apesar de a gente ainda ter vastas extensões de mata nativa no estado. Quando eu comecei a procurar, percebi que praticamente não existia material sobre Santa Catarina, enquanto outras regiões do país eram muito mais documentadas”, afirma. “Sempre tive um interesse enorme por animais silvestres. Desde que entrei na UniSociesc, participo do Grupo de Estudos de Animais Silvestres, hoje como vice-presidente. Espero que esse trabalho sirva de base para outros estudos e para políticas de conservação aqui no estado”, completa.
De acordo com o professor Jackson, a história da onça-pintada em Santa Catarina ainda é pouco conhecida pela maioria das pessoas, apesar de se tratar de uma das espécies mais emblemáticas da fauna do Estado e de um importante predador de topo de cadeia. “Resgatar esses registros históricos é fundamental para mostrar que a espécie fazia parte da Mata Atlântica catarinense e que seu desaparecimento está diretamente ligado às ações humanas. Conhecer o passado é o primeiro passo para planejar o futuro: só a partir dessa reconstrução histórica é possível pensar em estratégias reais de conservação, não apenas para a onça-pintada, mas também para outros felinos e grandes vertebrados do Sul do Brasil”, completa o professor.
Acervo impressionou pesquisadores
O estudante explica que o rigor metodológico foi um ponto central do trabalho. “Nosso principal critério foi que todos os registros precisavam estar acompanhados de fotografia, fosse de abate ou de captura viva. Excluímos relatos orais, espécimes de museu e imagens com qualquer dúvida sobre a localidade exata”, diz. Fotografias cuja origem poderia ser confundida entre Santa Catarina e estados vizinhos também ficaram de fora.
Com os critérios definidos, a equipe iniciou uma busca extensa por imagens históricas. “Pesquisamos jornais antigos, entramos em contato com museus e com famílias que guardavam fotografias de antepassados que haviam caçado uma onça-pintada no estado. Muitas dessas imagens estavam guardadas há décadas e provavelmente nunca seriam divulgadas”, relata Padilha.
Para ele, o principal resultado do estudo é o próprio volume e a qualidade do material reunido. “Conseguir 16 fotografias confirmadas é algo bem impressionante, considerando o vazio de dados que existia. Registramos localidades que não apareciam na literatura científica e até identificar um registro fotográfico de 1984, que hoje é o mais recente confirmado da espécie em Santa Catarina”, destaca. Entre os achados está também a fotografia de uma onça-pintada melânica, abatida na região de Taió, evidenciando a presença dessa variação de pelagem no estado.
Evidências de como ocorreu a extinção
A predominância de animais abatidos nas imagens analisadas reforça uma das principais conclusões do estudo. “Das 16 fotografias, 13 mostram onças mortas. Isso deixa muito claro o papel da caça predatória na extinção local da espécie”, afirma o estudante. A pesquisa aponta ainda a perda e a fragmentação do habitat e a redução de presas naturais como fatores associados ao desaparecimento da onça-pintada em Santa Catarina.
Os dados também ajudam a compreender a ocupação histórica do território catarinense pela espécie. “A região Oeste, que hoje é a mais desmatada do estado, tinha populações de onça-pintada até as décadas de 1950, 1960 e 1970. As fotografias mostram isso de forma concreta”, explica o estudante.
Além de reconstruir o passado, o estudo abre caminhos para reflexões futuras. “Esse material pode ajudar a pensar áreas que, quem sabe, possam servir como refúgio para a volta da espécie no futuro, principalmente as matas da região Norte que fazem conexão com o Paraná, onde existe a população viável mais próxima”, avalia. Para os autores, a divulgação do trabalho pode estimular o surgimento de novos registros históricos, especialmente da região Sul do estado, onde ainda não foram encontrados dados confirmados.
Padilha também destaca o papel do estudo na conscientização ambiental. “Muita gente não sabe que a onça-pintada também é nativa da Mata Atlântica e que já viveu em Santa Catarina. Normalmente ela é associada ao Pantanal ou à Amazônia, mas fazia parte da fauna do estado. Apesar de ainda existirem fragmentos importantes de Mata Atlântica, nenhum deles foi suficiente, em tamanho ou qualidade, para garantir a sobrevivência da espécie. As pressões humanas, especialmente a caça e a perda de habitat, foram muito fortes, e isso não afetou só a onça-pintada, mas várias outras espécies da fauna catarinense”, afirma o estudante.
