“O jornalismo devolve espessura às vidas que o tempo reduz”

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“Tudo nasce, desenvolve-se, escurece. As casas, também. Sobretudo aquelas que já foram habitadas por uma vida inteira – depois deixadas ocas, imóveis, como cenários ao fim do espetáculo. Há um silêncio viscoso nesses lugares.”

Assim, versada no melhor estilo do jornalismo literário, abre-se a reportagem “Arquitetura de um silêncio – retratos sobre memória, perda e o invisível da saúde mental”, de autoria da estudante de Jornalismo Caroline Soares, da UniSociesc. Publicada na edição 60 da Francisca, de julho do ano passado, a matéria percorre, em sete páginas, a triste história de um catarinense derrotado em sua batalha contra a depressão.

O trabalho da Carol é finalista, na categoria jornalismo universitário, do 5º Prêmio ACI Ocesc de Jornalismo, da Associação Catarinense de Imprensa (ACI). A solenidade de entrega da premiação ocorre no dia 2 de março, em Florianópolis.

É a segunda vez que Francisca marca presença nesse grupo tão seleto. O jornalista Luiz Gustavo dos Anjos, colaborador da revista, trouxe a terceira colocação, na categoria texto, do 4º Prêmio ACI, com sua reportagem sobre o Senegão, time de futebol amador de Joinville que é um libelo antirracista.

A futura jornalista relata como trabalhou esta pauta tão delicada, e o que a classificação no prêmio representa em sua carreira.

A matéria está disponível na versão digital da revista, na aba Edições.

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Caroline Soares

A história de Amandos Ravache é, antes de tudo, uma história sobre presença. Foi a partir dessa percepção que comecei a compreender que aquela não era apenas uma lembrança espalhada pelos corredores de um prédio, mas uma vida inteira que merecia ser escutada.

“Arquitetura de um Silêncio” nasceu de uma inquietação. Não começou como uma grande investigação, mas como um rumor, um nome, uma história trágica associada a um apartamento. Algo que existia quase como sussurro dentro de um prédio comum, desses que abrigam vidas inteiras atrás de portas fechadas, dos quais passamos na rua e imaginamos como seria o seu interior.

Lembro com precisão do momento em que a pauta deixou de ser curiosidade e se tornou compromisso. Eu estava na janela do meu apartamento, no chalé, e por um instante me desloquei imaginariamente para outro lugar, que, na verdade, era o mesmo lugar. Pensei nas paredes, nos corredores, nas portas que atravessamos todos os dias sem saber o que guardam. Todos nós moramos em casas, temos nossas rotinas, nossas famílias, nossas histórias. E, ainda assim, há silêncios que se instalam entre uma porta e outra.

Ali compreendi que o jornalismo também pode ser uma forma de escavação delicada. Não para expor, mas para compreender. Não para invadir, mas para iluminar o que foi simplificado demais. A arquitetura de um silêncio não é feita apenas de ausência, é feita de camadas, de ecos, de tudo aquilo que permanece mesmo quando já não se vê.

Escolher contar essa história foi também assumir a delicadeza que ela exige. É um tema sensível, mas necessário. Falar sobre ele é reconhecer que nenhuma vida se resume ao seu desfecho. Ao conversar com as pessoas que o amaram, sua irmã, sua sobrinha, seus amigos, percebi que cada relato era um arquivo vivo. Reviver memórias, boas ou difíceis, é tocar na matéria de que somos feitos. É entender que acumulamos, ao longo da vida, camadas invisíveis que continuam existindo mesmo quando alguém parte.

Hoje ainda moro no mesmo lugar. Ainda passo diariamente diante da porta daquele apartamento. E isso me lembra que nenhuma vida desaparece completamente. Ela permanece nas marcas, nas lembranças, nas histórias contadas, e também nas que escolhemos ouvir.

Concorrer ao 5º Prêmio ACI Ocesc com essa reportagem não é apenas uma expectativa profissional. É a confirmação de que histórias humanas, tratadas com cuidado e responsabilidade, encontram eco. Mais do que reconhecimento, é a possibilidade de ampliar uma conversa urgente sobre saúde mental, memória e pertencimento. Sou profundamente grata à família, que confiou a mim algo tão íntimo; às minhas professoras Samantha Borges e Sayonara Moreira, que caminharam comigo em cada etapa do processo, com rigor e sensibilidade; e à Revista Francisca, que acolheu a pauta e permitiu que essa história encontrasse espaço, forma e leitores.

Se esta matéria chega a mais pessoas, é porque o silêncio, quando escutado com respeito, também pode construir conexão. E talvez o jornalismo, quando se aproxima com humanidade, seja justamente isso, a tentativa de devolver espessura às vidas que o tempo insiste em reduzir.

1 Comments

  1. Caroline Soares disse:

    É uma alegria imensa ver Arquitetura de um Silêncio ganhar novos espaços por meio da Revista Francisca. Sou profundamente grata pelo acolhimento, pela confiança e pelo cuidado com que essa história foi publicada. Dividir essa conquista com vocês torna tudo ainda mais significativo.