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06/10/2026
Texto: Cláudia Morriesen
Juarez Machado, um dos mais representativos e importantes artistas brasileiros dos séculos 20 e 21, morreu na terça-feira, 6. Ele tinha 85 anos, estava internado em Vassouras (RJ) com pneumonia e sofreu uma parada cardíaca. Deixa três filhos.
Pintor, escultor, desenhista, caricaturista, cenógrafo, escritor e ator, Juarez tinha uma característica estética marcante e singular, e transitou por diferentes linguagens e meios de comunicação. Ficou nacionalmente conhecido por seu trabalho como o “mímico” do Fantástico nos anos 1970 e por ter desenvolvido uma iconografia muito particular, tornando-o um artista representativo e de projeção internacional da arte brasileira do século 20 e 21.
Infância e adolescência
Juarez nasceu em Joinville em 16 de março, filho do caixeiro viajante João de Oliveira Machado e de Leonora Busch Machado, que trabalhava pintando leques em uma fábrica da cidade. Seu irmão mais novo, Edson Busch Machado, tornou-se jornalista e artista, e ajudou a fundar o Instituto Internacional Juarez Machado (IIJM) ao seu lado.
Desde a infância, Juarez demonstrava talento para as artes e criatividade além do comum. Aos 3 anos de idade fez o primeiro desenho “registrado”: um tanque de guerra desenhado na página de um jornal que noticiava a Segunda Guerra Mundial. O original foi guardado por sua mãe e faz parte do acervo do artista, no IIJM.
Na adolescência, trabalhou como ilustrador de um laboratório farmacêutico e, ao apresentar-se para o serviço militar, foi convocado para trabalhar como artista de painéis do Batalhão de Infantaria. Após servir o exército por um ano, foi para Curitiba (PR) estudar na Faculdade de Belas artes. Na capital paranaense, começou a trabalhar na TV Paraná como cenografista.
Foi na época de estudante que recebeu seus primeiros prêmios: em 1961, conquistou o 2º lugar de Pintura na Mostra de Jovens Talentos e Menção Honrosa no 13º Salão da Primavera. No ano seguinte, levou o 1º prêmio de Desenho e Escultura na Exposição de Jovens Talentos, foi eleito o Melhor Escultor do Paraná no 19º Salão do Paraná; recebeu a Medalha de Prata no 3º Salão de Curitiba; e Medalha de Bronze na 14ª Exposição de Curitiba.
O artista inovador
Após a formatura, mudou-se para o Rio de Janeiro e começou a circular nas mesmas rodas que os grandes ilustradores e escritores de seu tempo: fez amizade com Ziraldo, Jaguar, Millôr Fernandes e outros artistas que trabalhavam nos principais jornais. Em plena ditadura militar, burlava a censura com suas contribuições ácidas a veículos como “O Cruzeiro”, “Fatos e Fotos”, “Desfile”, “Ele e Ela” e “O Pasquim”, além do “Jornal do Brasil”.
Em 1973, Juarez compôs a equipe que trabalhou na criação do Fantástico, o programa dominical da Rede Globo. Ele trabalhava como cenógrafo do programa e produzia cenários e efeitos para vídeos musicais de artistas como Elis Regina, Roberto Carlos, Raul Seixas e Emílio Santiago, considerados visionários para a época
Em 1974, precisou assumir um espaço vazio deixado pela ausência de Chico Anysio, que não pode produzir o episódio de seu quadro de humor no dominical por estar doente. Juarez, que assinava a coluna de humor Nonsense, no Jornal do Brasil, inspirou-se pelo mesmo tipo de humor de suas tirinhas e criou um quadro especialmente para o programa. O resultado foi tão bom que permaneceu na programação. Ele interagia com os próprios desenhos, sempre com o rosto pintado de branco, vestindo uma fantasia, em silêncio e sozinho.
Juarez Machado também foi precursor de um movimento no Brasil: o do livro-imagem. “Ida e Volta”, publicado em 1975, fez história como a primeira obra brasileira a ter uma narrativa formada apenas por ilustrações. Como autor, ele também lançou os livros “Domingo de Manhã”, “Limite”, “Saída” e “Emoções”, todos no mesmo estilo.
Internacionalização da trajetória
Em 1986, após procurar por vários países, Juarez encontrou seu lugar no mundo em Montmartre, famoso por ser o “bairro dos artistas” de Paris. Na capital francesa, costumava visitar o Museu do Louvre e outras instituições culturais com frequência para estudar e buscar inspiração.
Sua obra chegou a países como Estados Unidos, Portugal, Itália, Japão, Uruguai, Suíça, Líbano, Bélgica e Austrália, em exposições e coleções. Foi em uma exposição em Paris o cineasta Jean-Pierre Jeunet conheceu as telas do artista brasileiro e encontrou as cores que buscava para usar no filme que estava produzindo, no início dos anos 2000: “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”.
Jeunet fotografou quadros, livros e outros trabalhos de Juarez para mostrar à equipe de filmagem. Além disso, dois quadros de Juarez Machado aparecem no filme, decorando o quarto da protagonista, posicionados ao lado da cama. Depois, ele ainda contribuiu com o cineasta na direção de fotografia de “Eterno Amor”, filme que também era protagonizado pela atriz Audrey Tatou.
Legado para a cidade natal
Em 2014, Juarez cumpriu uma promessa que fez a si mesmo aos 19 anos, quando estava mudando para Curitiba para estudar por não haver na época, em sua cidade-natal, um espaço para formação de artistas: de que um dia voltaria a Joinville e construiria um centro de referência para a cidade.
O lugar foi construído no terreno da antiga casa dos pais dele, na rua Lages, com o nome Instituto Internacional Juarez Machado. O espaço possui duas galerias e uma biblioteca dedicada às artes. Além da exposição das obras do artista, o instituto promove exposições de artistas locais, nacionais e internacionais.
Juarez Machado também dá nome a um dos teatros da cidade, localizado no Centreventos Cau Hansen e inaugurado em 8 de outubro de 2001, há 25 anos. No foyer do teatro estão localizadas duas obras que ele produziu para presentear a cidade: “Autorretrato”, uma escultura em bronze do busto do artista; e “Uma história de amor em Joinville”, tela a óleo de 97cm × 3,94m concebida como uma narrativa visual dedicada à cidade e ao universo teatral, representando atores, palcos, bastidores, cenários e atividades que integram o fazer cênico.
Ele foi responsável pela obra que decora o portal de entrada principal do Centreventos Cau Hansen: o mural “O Grande Circo”. O mural tem 90 m² e é formado por 963 peças cerâmicas pintadas à mão, e foi inaugurado em 1999.
